
A corrida da inteligência artificial costuma ser contada a partir de modelos, chips e empresas de tecnologia. Mas existe uma segunda corrida acontecendo longe das telas: a disputa pela infraestrutura capaz de sustentar toda essa capacidade computacional.
Data centers de grande escala precisam de energia em volumes elevados, conexão estável à rede elétrica, transmissão, fibra óptica, sistemas de refrigeração e conectividade internacional. Sem essa estrutura, não existe capacidade computacional suficiente para sustentar a expansão da IA.
E o Nordeste começa a aparecer justamente nesse ponto da equação.
Um estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) identificou 30 projetos de data centers na região, com demanda potencial de 8,3 GW até 2038. Os números ainda representam projetos em diferentes estágios de desenvolvimento, e não empreendimentos já confirmados. Ainda assim, mostram a dimensão do interesse sobre a região.
A nova corrida não é apenas por tecnologia
A expansão da inteligência artificial está mudando a lógica de infraestrutura da economia digital.
Grandes modelos exigem capacidade de processamento cada vez maior. Isso significa mais servidores, mais GPUs, mais armazenamento e, consequentemente, mais energia.
O resultado é uma mudança importante: energia passa a ser um dos principais ativos estratégicos para a expansão da infraestrutura de IA.
A EPE já trata data centers como cargas eletrointensivas e vem estudando como preparar o sistema elétrico para atender essa nova demanda. No Nordeste, os estados do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte aparecem entre as áreas com maior concentração de potenciais grandes cargas.
Isso faz com que a discussão sobre inteligência artificial deixe de pertencer apenas ao setor de tecnologia.
Ela passa a envolver energia, engenharia, construção, telecomunicações, infraestrutura e planejamento econômico.
30 projetos e 8,3 GW: a dimensão do interesse no Nordeste
Os dados apresentados pela EPE apontam para 30 projetos de data centers no Nordeste e uma demanda potencial de 8,3 GW até 2038. Aproximadamente um terço dessa capacidade está concentrado no Ceará, segundo a Federação das Indústrias do Estado do Ceará.
É importante fazer uma distinção: esses números representam interesse e projetos em diferentes estágios, e sua concretização depende de fatores como viabilidade econômica, conexão à rede e disponibilidade de infraestrutura.
Mesmo assim, a escala é suficiente para provocar uma discussão sobre a capacidade do sistema elétrico e de telecomunicações de acompanhar o ritmo de expansão pretendido.
A infraestrutura precisa chegar antes ou, pelo menos, acompanhar a entrada dessas grandes cargas.

Ceará e Piauí já estudam uma nova estrutura de transmissão
O movimento já está produzindo respostas concretas no planejamento energético.
Em junho de 2026, a EPE apresentou uma proposta para ampliar em até 4 GW a capacidade de conexão de grandes cargas nas regiões de Pecém, no Ceará, e Parnaíba, no Piauí.
A proposta considera data centers e plantas de hidrogênio por eletrólise e prevê, entre outras obras, uma nova subestação de 500 kV na região do Pecém e 1.848 quilômetros de linhas de transmissão em 500 kV, conectando Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí.
O investimento estimado para a solução recomendada é de aproximadamente R$ 5,68 bilhões em novas instalações da Rede Básica.
Desse total, R$ 1,09 bilhão seria associado à etapa inicial prevista para 2032, enquanto R$ 4,59 bilhões dependeriam da efetiva concretização das cargas projetadas ao longo do tempo.
É um exemplo claro de como a expansão da IA começa a influenciar decisões sobre infraestrutura que tradicionalmente seriam associadas à indústria pesada e ao setor elétrico.
Por que o Ceará aparece nesse mapa?
O Ceará reúne uma combinação de fatores que interessa a projetos de infraestrutura digital de grande escala.
Um deles é a conectividade internacional.
Fortaleza possui 16 cabos submarinos de fibra óptica, conectando o Brasil a redes internacionais na Europa, Estados Unidos, África e Caribe. O estado também conta com uma extensa rede de fibra por meio do Cinturão Digital. Dados do Governo do Ceará apontam cerca de 5.922 quilômetros de fibra e 137 municípios alcançados.
Outro fator é a disponibilidade de geração renovável.
A região Nordeste possui uma forte presença de energia eólica e solar, justamente em um momento em que empresas de tecnologia estão cada vez mais atentas à origem e ao custo da energia utilizada por grandes estruturas computacionais.
Essa combinação ajuda a explicar por que o Ceará aparece entre os estados analisados para receber novas cargas eletrointensivas.
Pecém entra na equação
A região do Pecém reúne outro componente importante dessa estratégia: infraestrutura industrial e logística.
A proximidade entre geração de energia, complexo industrial, porto e novas estruturas de transmissão cria condições para a instalação de empreendimentos de grande escala.
O estudo da EPE prevê justamente a implantação de uma nova subestação de 500 kV na região do Pecém para ampliar a capacidade de atendimento a grandes cargas.
Isso cria uma conexão interessante entre diferentes movimentos que já estão acontecendo no Ceará: energia renovável, indústria, logística, hidrogênio e infraestrutura digital começam a disputar e compartilhar a mesma infraestrutura estratégica.

Data centers não são apenas prédios cheios de servidores
A imagem de um data center pode parecer distante da economia tradicional.
Na prática, um empreendimento dessa escala envolve uma cadeia extensa.
Antes de os servidores entrarem em funcionamento, são necessários terrenos, obras civis, sistemas elétricos, subestações, linhas de transmissão, equipamentos de refrigeração, segurança, telecomunicações e conectividade.
Depois, existe uma demanda permanente por manutenção, energia, serviços especializados, tecnologia e profissionais qualificados.
Isso significa que a expansão dos data centers pode movimentar setores que vão muito além da tecnologia.
Construção civil, energia, engenharia, telecomunicações, logística e serviços especializados passam a fazer parte da mesma cadeia.
A infraestrutura pode se tornar o verdadeiro gargalo
Existe, porém, uma questão central nessa corrida: ter projetos interessados não significa ter infraestrutura disponível para todos eles.
A própria EPE destaca que muitos projetos ainda apresentam grau elevado de incerteza e que a expansão da transmissão precisa considerar a maturidade das iniciativas e o ritmo efetivo de instalação.
Isso cria um desafio de planejamento.
Construir infraestrutura antes da confirmação das cargas pode resultar em capacidade ociosa. Esperar a confirmação definitiva de todos os projetos, por outro lado, pode atrasar a entrada de investimentos.
É justamente por isso que a EPE propôs uma solução flexível e escalonável, capaz de acompanhar a concretização das novas cargas ao longo do tempo.
A corrida da IA, portanto, também é uma corrida contra o tempo de implantação de linhas, subestações e estruturas de conexão.
O efeito vai além dos data centers
A expansão dessa infraestrutura pode ter impactos sobre diferentes setores da economia nordestina.
Mais capacidade de transmissão pode beneficiar não apenas data centers, mas também outras atividades eletrointensivas. O próprio estudo da EPE analisa conjuntamente projetos de data centers e hidrogênio, duas atividades com grande demanda potencial por eletricidade.
A consequência é a possibilidade de criação de novos polos de investimento próximos a áreas com energia, conectividade e infraestrutura adequada.
Isso pode influenciar decisões sobre localização industrial, mercado imobiliário, construção, logística e formação de mão de obra.

O próximo ciclo de investimentos vai ser físico
Durante anos, a transformação digital foi associada principalmente a software, plataformas e aplicativos.
A inteligência artificial está adicionando uma nova camada a essa transformação.
Agora, o crescimento digital também exige energia, terrenos, concreto, cabos, linhas de transmissão, subestações, servidores e sistemas de refrigeração.
Para o Nordeste, isso abre uma oportunidade de participar de uma cadeia global de infraestrutura em expansão.
Mas também cria desafios: garantir energia suficiente, acelerar investimentos em transmissão, formar profissionais especializados e transformar projetos anunciados em operações efetivamente instaladas.
A corrida da inteligência artificial, portanto, não acontece apenas entre empresas de tecnologia.
Ela também acontece entre regiões capazes de oferecer a infraestrutura necessária para que essa tecnologia cresça.
E, nesse novo mapa, o Nordeste já começou a aparecer.
De olho nos próximos movimentos
A corrida da inteligência artificial não acontece apenas entre empresas de tecnologia. Ela também acontece entre regiões capazes de oferecer energia, conectividade e infraestrutura para sustentar essa nova economia.
É justamente esse tipo de movimento que o Ramp Up acompanha de perto: os setores que estão crescendo, os investimentos que estão redesenhando o Nordeste e as oportunidades que surgem a partir dessas transformações.





